ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Na delicada tensão entre o silêncio do campo e o clamor por justiça, Ana Cris

Ben encontrou sua linguagem: a arte. Em meio ao verde da zona rural do Rio

Grande do Sul, onde a natureza sussurra seus mistérios à infância, Ana

desenhava o mundo ao redor com o mesmo cuidado com que se aprende a

escutar a terra. Ainda menina, já carregava dentro de si uma urgência de saber,

uma fome de horizonte. Aos 14 anos, deixou o aconchego do lar para perseguir

seu sonho: o de conquistar um diploma e, com ele, sua autonomia.

A vida a levou por caminhos de ciência e justiça: formou-se em Farmácia, depois

em Direito. Atuou nos corredores hospitalares e nos labirintos da lei, guiada por

um respeito profundo à dignidade humana. Mas foi ao se deparar com a crueza

da realidade — aquela que estatísticas não abarcam — que ouviu um chamado

antigo, vindo da infância: a arte.

Redescobriu nos traços e nas tintas o que nenhuma sentença jurídica podia

traduzir. Em 2020, iniciou com ilustrações infantis; em 2022, mergulhou na pintura

em tela com tinta acrílica, técnica que se tornou sua linguagem predileta. Em

cada obra, Ana busca esculpir o invisível: emoções que se escondem no

cotidiano, gestos de afeto despercebidos, a dor silenciosa e as pequenas

alegrias que costuram a existência.

Sua arte não se faz de espetáculos — ela sussurra, acolhe, convida à escuta. É

janela entre corpo e alma, ponte entre a individualidade e o coletivo. Em suas

composições, o espectador não apenas vê, mas sente. A artista desenha

pertencimento com cores, escreve fraternidade com pinceladas, traduz esperança

com formas delicadas.