r e p o r t
ArtNow
Edição 12
Julho 2026
ArtNow Report
Arte de todas as formas
O cinema nunca deixou de pintar.
Pintura
Fotografia
Design
Cinema
A Mesma Tela
Salvador Dalí
Dalí, Warhol, Lynch, Kurosawa:
quando largar o pincel pela
câmera não é trocar de arte,
mas continuá-la.
A história da arte gosta de manter a pintura e o cinema em quartos
separados — uma é antiga, contemplativa, pendurada na parede; o
outro é moderno, veloz, projetado no escuro. Mas alguns artistas
atravessaram a porta entre os dois quartos, e o fizeram não como
figura de linguagem, e sim com o corpo: largaram o pincel, pegaram a
câmera, e descobriram que não tinham trocado de arte. Tinham
apenas continuado a mesma, por outros meios.
Salvador Dalí e Buñuel
Os primeiros a cruzar foram os que precisavam que a imagem sonhasse. A
pintura podia sugerir o delírio, mas não podia deixá-lo correr — e foi atrás
dessa corrente que Salvador Dalí entrou no cinema. Em 1929, ao lado de
Buñuel, abriu Um Cão Andaluz com uma navalha cortando um olho: a
imagem que nenhuma tela parada suportaria, agora em movimento. Anos
depois, Hollywood o chamou para desenhar o sonho de um personagem em
Quando Fala o Coração, de Hitchcock — que recusava o borrão habitual dos
sonhos no cinema e queria pesadelos mais nítidos que o próprio filme. O
pintor foi contratado justamente pela precisão alucinada do que sabia fazer
parado. Filmar, para ele, era deixar o quadro delirar em voz alta.
O impulso contrário também virou cinema. Em vez de fazer a imagem se
mover, Andy Warhol a obrigou a ficar imóvel — e transformou o tempo no
assunto. Sleep, de 1963, são mais de cinco horas de um homem dormindo;
Empire, do ano seguinte, são oito horas da fachada do Empire State com a
câmera sem piscar. O pintor pop apontou a lente para a coisa mais parada
que encontrou e esperou. A pintura sempre foi isso: uma imagem detida, que
o olho percorre no próprio tempo. Warhol apenas devolveu essa quietude ao
cinema, e descobriu que a duração, esticada além do confortável, já era
uma forma. Na estreia de Sleep, dos nove presentes, dois desistiram na
primeira hora.
Andy Warhol
Mas a travessia mais funda não foi a de quem visitou o
cinema — foi a de quem se mudou para ele de vez, sem
nunca devolver as chaves da pintura. David Lynch
formou-se pintor, e contava ter virado cineasta por causa
de um único instante diante da própria tela. Pintava um
jardim escuro quando viu as plantas se moverem e ouviu
um vento subir do quadro. "Uma pintura em movimento",
pensou — e foi atrás disso pelo resto da vida. Fez cinema
sem largar o pincel, insistindo que as regras da pintura
valiam para a tela grande e que um filme não passava
de uma pintura que anda e ganha som.
Outros fizeram a mesma mudança e foram longe. Julian
Schnabel, o pintor das telas monumentais feitas de
pratos quebrados, dirigiu e levou o prêmio de Melhor
Diretor em Cannes — e dizia que tudo nele começara na
fusão das duas artes, na luz de um Rembrandt visto num
museu aos dez anos e na grandiosidade de um épico de
Hollywood, recebidas no mesmo dia pela mesma criança.
Steve McQueen percorreu o caminho do branco da
galeria ao escuro da sala: ganhou o Turner Prize, a maior
honra da arte britânica, e anos depois o Oscar de Melhor
Filme — o único a ter os dois nas mãos, e que ainda assim
se apresenta, antes de tudo, como artista.
Julian Schnabel
E então o rio corre de volta, o que prova que
sempre foi um só. Akira Kurosawa quis ser
pintor antes de ser diretor, e nunca deixou de
ser. Durante a longa espera para financiar
Kagemusha, voltou ao cavalete e produziu
centenas de quadros — cada plano do filme
nascendo primeiro como tinta no papel,
antes de existir como luz na tela.
Seguiu pintando à mão cada quadro de Ran
e
de
Sonhos,
onde
reconstruiu,
com
fidelidade de devoto, o mundo de Van Gogh.
Não pintava para pintar bem; pintava para
ver o filme antes de filmá-lo. Fez da câmera
o pincel, e do mundo a tela.
No fim, perguntar onde termina a pintura e
começa o cinema talvez seja a pergunta
errada. Esses artistas não atravessaram de
uma arte para a outra. Atravessaram para o
lugar onde as duas nunca foram duas —
onde deter o tempo e movê-lo são o mesmo
desejo, e o pincel e a lente, a mesma mão.
O pintor que pega a câmera não abandona
nada. Ele só descobre que a tela, a sua e a
do cinema, sempre teve a mesma palavra.
N o f i m , o p i n c e l
e a l e n t e n u n c a
f o r a m d o i s
i n s t r u m e n t o s
—
f o r a m a m e s m a
m ã o , p r o c u r a n d o
a m e s m a i m a g e m
e m s u p e r f í c i e s
d i f e r e n t e s .
EXPEDIENTE
EDIÇÃO 12
ESPECIAL CINEMA
Revista dedicada à arte contemporânea em
todas as suas formas e expressões,
apresentando artistas emergentes e
consagrados, exposições, análises críticas e
leituras do cenário atual.
Publicação digital trimestral em português,
inglês, espanhol e francês.
DIREÇÃO
Chirlei Bastos
Gilberto Georg
CURADORIA E CONTEÚDO
Chirlei Bastos
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CAPA
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Regina Picoli · edição internacional
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Arte, café e leitura,
uma tríade inspiradora.
Julho 2026
Desperte sua criatividade. Bem-vindo à ArtNow Report.
O Ponto em que
Termina
Rostislaw Tsarenko
A imagem não nasce de um único olhar ou de um traço contínuo; ela se acumula. Na
obra do artista ucraniano Rostislaw Tsarenko, o espaço em branco do papel é
conquistado pela insistência. Cada ponto microscópico de nanquim funciona como
uma fração de segundo, uma respiração contida na caneta de ponta fina. Olhar para
suas criações é compreender que o tempo, na arte, não é uma linha que avança em
direção ao fim, mas uma matéria silenciosa que se deposita sobre a superfície do
mundo, até tornar o invisível visível.
Existe uma dimensão cinematográfica nessa insistência da duração. Não pela busca
de uma narrativa linear, mas pela própria textura do visível. Assim como o grão de
uma película vibra na escuridão de uma sala de projeção, os milhões de pontos de
Tsarenko conferem uma pulsação secreta à aparente imobilidade do desenho. O
enquadramento permanece fixo, mas a matéria se move. Trata-se de uma
montagem existencial: vinte, trinta horas condensadas em um retângulo de papel,
onde o tempo deixa de ser um conceito para tornar-se matéria visível.
Admirador confesso da estatuária clássica, Rostislaw Tsarenko opera um milagre
inverso ao da tradição escultórica. Se o mestre renascentista desvelava a forma
humana libertando-a de dentro de um bloco sólido de mármore, o artista ucraniano
ergue suas esculturas bidimensionais a partir do vazio absoluto. São monumentos
ficcionais que parecem carregar a poeira e o desgaste de séculos em museus
imaginários. Sua relação com a tradição, porém, jamais é arqueológica. A iconografia
clássica surge como linguagem, não como citação. O mármore deixa de ser matéria
para tornar-se memória; a luz deixa de apenas revelar as formas para esculpir o
invisível. O chiaroscuro não organiza somente os volumes — organiza estados de
consciência, onde a sombra deixa de ser ausência para tornar-se origem do mistério.
Nesse território rigorosamente monocromático, a pedra fictícia parece pulsar com
mais vigor do que a própria carne. O surrealismo nunca se manifesta como ruptura
ou espetáculo, mas como uma consequência natural da interioridade. Tudo o que é
complexo, espiritual ou invisível resolve-se na unidade elementar do ponto. Cada
imagem nasce da repetição paciente de um gesto quase imperceptível, até que o
fragmento se transforme em totalidade.
Embaixador da Royal Talens desde 2019, com obras em coleções por boa parte da Europa e
colaborações que vão de músicos a marcas — de Holly Bowling à TTSWTRS —, Tsarenko
transporta esse rigor para cada nova superfície. Talvez por isso o título de seu livro-álbum, A
Vida Começa com um Ponto, o Ponto em que Termina, soe menos como uma metáfora e mais
como uma declaração estética: entre o primeiro e o último toque da caneta não existe
apenas um desenho. Existe a construção silenciosa de uma existência inteira.
Ao nos afastarmos da obra, os pontos desaparecem na ilusão perfeita da forma; ao nos
aproximarmos, a forma se desintegra em uma constelação infinita de poeira preta. Ficamos
retidos nesse limiar exato entre a dissolução e o reconhecimento. Resta na retina a impressão
de uma estátua que, na iminência de respirar, escolheu o eterno instante antes do
movimento.
Instagram: @rostislaw_ts