ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Com essa série, aprofundo algo que já vinha sendo elaborado, mesmo

que sem nome, mesmo que sem forma definida: a costura entre pintura

e escrita. Tudo começou com um poema que escrevi em 2014, depois de

assistir ao filme Mãe e Filha, de Petrus Cariry. As imagens do filme me

atravessaram como uma lembrança que não era só minha, mas que me

fazia lembrar de mim mesma. De algo esquecido. De algo que não

aconteceu. O poema se chama O sentir do não feito. E talvez seja isso

que essa série toda esteja tentando fazer: sentir o que não foi.

Memória em movimento é um desdobramento, mas também é retorno. É

tentativa de olhar o presente, essa tela ainda em branco, sem apagar as

marcas do passado. Observo o cotidiano. Vivo o cotidiano. Relato o que

ele deixa em mim. Os gestos, os silêncios, o que resiste, o que se

transforma. Tento reconhecer nas coisas mais simples uma escuta

possível das singularidades. Acredito que essas singularidades estão

sempre por serem descobertas, de novo e de novo, desde que se mude o

olhar. Desde que se tenha tempo. Desde que se insista. E é nesse

deslocamento do olhar que ainda encontro a chance de acreditar. Que

ainda pode haver permanências que merecem cuidado. Que ainda pode

haver mudanças que precisam acontecer.

Em um momento em que tanto se perde, em que tanto se destrói, senti

que precisava voltar ao que me é essencial. Pintura e poesia sempre

estiveram comigo. E agora caminham juntas nesta série, como dois

modos diferentes de dizer a mesma coisa que não se diz. Entre a infância

e a adolescência, há imagens. Imagens que se sobrepõem, que se

fragmentam, que voltam com outra cara. São essas imagens que se

oferecem agora, talvez como matéria de reflexão. Talvez como vestígio.

Talvez apenas como escuta.

Série Memória em movimento