Com essa série, aprofundo algo que já vinha sendo elaborado, mesmo
que sem nome, mesmo que sem forma definida: a costura entre pintura
e escrita. Tudo começou com um poema que escrevi em 2014, depois de
assistir ao filme Mãe e Filha, de Petrus Cariry. As imagens do filme me
atravessaram como uma lembrança que não era só minha, mas que me
fazia lembrar de mim mesma. De algo esquecido. De algo que não
aconteceu. O poema se chama O sentir do não feito. E talvez seja isso
que essa série toda esteja tentando fazer: sentir o que não foi.
Memória em movimento é um desdobramento, mas também é retorno. É
tentativa de olhar o presente, essa tela ainda em branco, sem apagar as
marcas do passado. Observo o cotidiano. Vivo o cotidiano. Relato o que
ele deixa em mim. Os gestos, os silêncios, o que resiste, o que se
transforma. Tento reconhecer nas coisas mais simples uma escuta
possível das singularidades. Acredito que essas singularidades estão
sempre por serem descobertas, de novo e de novo, desde que se mude o
olhar. Desde que se tenha tempo. Desde que se insista. E é nesse
deslocamento do olhar que ainda encontro a chance de acreditar. Que
ainda pode haver permanências que merecem cuidado. Que ainda pode
haver mudanças que precisam acontecer.
Em um momento em que tanto se perde, em que tanto se destrói, senti
que precisava voltar ao que me é essencial. Pintura e poesia sempre
estiveram comigo. E agora caminham juntas nesta série, como dois
modos diferentes de dizer a mesma coisa que não se diz. Entre a infância
e a adolescência, há imagens. Imagens que se sobrepõem, que se
fragmentam, que voltam com outra cara. São essas imagens que se
oferecem agora, talvez como matéria de reflexão. Talvez como vestígio.
Talvez apenas como escuta.
Série Memória em movimento