Sou artista visual e meu trabalho transita entre colagem, desenho e pintura. Me
movo entre fragmentos, sobras, reaproveitamentos gráficos, como quem recolhe
pedaços de memória para montar, camada por camada, um silêncio com forma.
Gosto de pensar que trabalho à margem da palavra, mesmo quando ela me
ronda. O que me interessa não é ilustrar o mundo, mas escutá-lo. Escutar o que
ele ainda sussurra, o que ficou, o que insiste em voltar, mesmo sem nome.
Pintar, para mim, é como escrever. Cada traço é uma frase sem palavras. Cada
camada, uma reescrita silenciosa. Os trabalhos nascem assim: entre o gesto e a
pausa, entre o que surge e o que se apaga, como se o suporte fosse uma página
em branco onde o tempo, em vez de passar, se assentasse. Camada sobre
camada. Presença sobre ausência.
Tenho usado tinta a óleo sobre papel como quem revisita lembranças. Como
quem tenta nomear o que escapa. As imagens surgem do cotidiano, de leituras,
de sobras, de restos de cor, mas também de vazios, de silêncios, de acasos. Às
vezes é o papel que me conduz. A textura, as manchas, os acidentes. Então
desenho diretamente com o pincel, com o carvão, com o conté. E vou, sem
esboço, como quem escuta com a mão.
É
assim
que
trabalho:
entre
ausências
e
repetições,
entre
pequenas
permanências e o risco constante de apagamento. Penso que há uma narrativa
entre uma imagem e outra. Uma história íntima. Talvez muda. Talvez só visível aos
olhos que param para ver. Meus títulos nascem por último, quando a imagem
finalmente me diz ao que veio, ou quando me olho nela e percebo o que já estava
ali. E nesse processo todo, pintar é meu modo de estar no mundo. É onde
encontro abrigo. Mas também onde me exponho. Sempre as duas coisas.
Memória em Movimento
Justina D’Agostino