ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Sou artista visual e meu trabalho transita entre colagem, desenho e pintura. Me

movo entre fragmentos, sobras, reaproveitamentos gráficos, como quem recolhe

pedaços de memória para montar, camada por camada, um silêncio com forma.

Gosto de pensar que trabalho à margem da palavra, mesmo quando ela me

ronda. O que me interessa não é ilustrar o mundo, mas escutá-lo. Escutar o que

ele ainda sussurra, o que ficou, o que insiste em voltar, mesmo sem nome.

Pintar, para mim, é como escrever. Cada traço é uma frase sem palavras. Cada

camada, uma reescrita silenciosa. Os trabalhos nascem assim: entre o gesto e a

pausa, entre o que surge e o que se apaga, como se o suporte fosse uma página

em branco onde o tempo, em vez de passar, se assentasse. Camada sobre

camada. Presença sobre ausência.

Tenho usado tinta a óleo sobre papel como quem revisita lembranças. Como

quem tenta nomear o que escapa. As imagens surgem do cotidiano, de leituras,

de sobras, de restos de cor, mas também de vazios, de silêncios, de acasos. Às

vezes é o papel que me conduz. A textura, as manchas, os acidentes. Então

desenho diretamente com o pincel, com o carvão, com o conté. E vou, sem

esboço, como quem escuta com a mão.

É

assim

que

trabalho:

entre

ausências

e

repetições,

entre

pequenas

permanências e o risco constante de apagamento. Penso que há uma narrativa

entre uma imagem e outra. Uma história íntima. Talvez muda. Talvez só visível aos

olhos que param para ver. Meus títulos nascem por último, quando a imagem

finalmente me diz ao que veio, ou quando me olho nela e percebo o que já estava

ali. E nesse processo todo, pintar é meu modo de estar no mundo. É onde

encontro abrigo. Mas também onde me exponho. Sempre as duas coisas.

Memória em Movimento

Justina D’Agostino