Há artistas que esculpem o mundo com barulho. Outros, como Ellis Monteiro,
preferem o sussurro. Suas mãos não apenas moldam a argila — elas a escutam,
sentem sua memória ancestral e a conduzem com respeito quase ritual. Como quem
prepara uma mesa de piquenique à beira do Sena, sob a luz tênue de uma tarde
parisiense, Ellis organiza o invisível em formas visíveis, convidando o olhar e o tato
para um banquete de sensações sutis.
Suas cerâmicas murmuram histórias em branco fosco. São a manifestação da
"Casca” – metáfora e realidade – que guarda o gesto humano, o tempo da espera, a
beleza do que não se repete. Frágeis na aparência, mas resistentes na essência, são
películas que guardam, protegem, dividem espaços. Amorfas, únicas, de contornos
irregulares intuitivos, adaptam-se àquilo que lhes serve, mostram um tanto do que
levam dentro e transportam ao outro um tanto de si. São igualmente oportunas e
guardiãs, celebrando a beleza que, assim como na natureza, reside na singularidade
imperfeita.
Utilizando a técnica ancestral do pinch pot, Ellis modela a matéria com a ponta dos
dedos, em um processo meditativo onde o controle cede espaço à escuta profunda
do barro. Cada peça é uma conversa íntima, silenciosa e intuitiva entre a artista e a
terra. Ao invés de moldes e esboços, há presença plena no momento da criação. Ao
invés de adornos, há essência pura. A paleta é mínima — tons de argila clara ou
escura, banhados por um branco suave e opaco, como a bruma das manhãs
francesas que envolve o que é essencial.