ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Alguns lugares não se visitam — nos visitam. Paris tocou Gianella Riephoff com dedos

invisíveis, delicados e certos, como quem desperta um segredo antigo dentro da alma.

Foi ali, entre os reflexos dourados de Versailles e as noites líquidas às margens do Sena,

que suas flores, antes caladas, quiseram falar. Embora conhecida por suas abstrações

intensas, Gianella sempre pintou flores — mas em silêncio, como quem escreve cartas

que nunca envia. Elas nasciam quando o mundo exigia pausa, quando o gesto

precisava respirar. Pintar flores era um abrigo, um silêncio só dela. Em Paris, porém,

essas flores pediram luz.

Nascida sob um céu uruguaio, com raízes fincadas na exuberância brasileira, em

Florianópolis - Santa Catarina, sua arte é o reflexo de uma jornada pessoal e artística

tecida com fios de memória, a força primordial da natureza e uma liberdade que

transborda em cada toque do pincel.

Em sua trajetória, Gianella sempre pintou sem esboços — gestos livres, tinta acrílica

sobre tela, camadas intuitivas como paisagens emocionais. Mas foi em Paris que um

novo suspiro se insinuou em sua paleta: a leveza da aquarela. Técnica rara em seu

repertório, usada agora como quem respira fundo e se deixa levar. Inspirada não por

visitas, mas pela vibração sensível de Monet, ela se aproximou das flores não como

forma, mas como presença.

Versailles não foi apenas uma imagem, foi um sopro dourado. Os jardins

milimetricamente desenhados tocaram seu olhar sem exigir obediência: deixaram

espaço para que o inesperado — um perfume, uma pétala caída, uma cor que escapa

— se instalasse. “As flores me pintaram”, ela disse. E essa frase contém toda a entrega

de sua experiência.

A Torre Eiffel, por sua vez, não se impôs como monumento, mas como metáfora.

Gianella a viu como renda de ferro contra o céu, estrutura que vibra, que flutua. Na tela,

não aparece como símbolo turístico, mas como estado emocional: leve, suspensa,

quase um sussurro de aço e luz.

O que Gianella trouxe de Paris não cabe numa mala. E talvez nem em palavras. O que

se depositou sobre ela foi mais sutil: sensações, silêncios, gestos internos. Sua pintura

agora carrega sementes — pequenas partículas visuais do que ainda virá. Porque ela

sabe: as imagens não se colhem de imediato. Elas germinam.

Em cada cor sobreposta, em cada transparência deixada pela aquarela, há um convite à

contemplação. Não para entender, mas para sentir. Gianella não nos oferece respostas:

oferece atmosferas. E sua Paris — não a dos postais, mas a das entrelinhas — pulsa em suas

obras como um perfume que persiste na pele mesmo depois de uma despedida.