ArtNow Report - Ed. 08 - Port

A essência que a fascina em Versailles é o "encontro de dois estilos

predominantes", o monumental Barroco Clássico de Luís XIV e o leve Rococó

de Luís XV, com suas "cores claras, motivos florais e cenas galantes". Adriana

"ama" esses estilos e tenta incluí-los em seu trabalho, utilizando "folhas de

ouro, cores metálicas, detalhes e pinceladas mais clássicas". Essa mistura de

teatralidade e romantismo se reflete em sua técnica, que incorpora esses

metálicos sutis e uma paleta de cores que flutua entre o etéreo e o

dramático. Há uma harmonia arquitetônica em cada composição — reflexo,

talvez, da precisão que vem de sua formação inicial como cirurgiã dentista,

agora sublimada em arte.

Mas é nas flores que Adriana parece encontrar seu idioma mais íntimo.

Rosas, peônias, hortênsias — todas traduzidas em aquarelas que respiram

leveza, mas carregam o peso simbólico da história. Suas "Flores Europeias"

são mais que botânicas: são narrativas silenciosas de um Velho Mundo onde

cada pétala pode contar um segredo.

Para Adriana, de fato, as flores carregam "memórias históricas". Elas a fazem

"viajar no tempo" tanto pela espécie em si — peônias, rosas associadas à

Europa, Versailles, o período clássico — quanto através de artistas que as

retrataram, como Pierre Joseph Redouté (evocando o clássico, científico) e

Monet (transportando-a pela "Belle Époque", auge da elegância, do luxo e da

arte). Suas pinturas botânicas, conhecidas como "Flores Europeias", são

"botânicas muito românticas" que, em seus tons e formas, transmitem esse

"ar mais clássico transportando as pessoas para o 'velho mundo'." Rosas e

peônias, em particular, representariam Maria Antonieta, por serem "luxuosas,

aristocráticas, belas e complexas".

No ateliê, Adriana recriou Versailles com seus próprios rituais: livros de arte,

filmes históricos, trilhas sonoras francesas e até perfumes com fragrâncias

aristocráticas fizeram parte do processo criativo. Até os materiais escolhidos

— papéis e tintas francesas, de tradição centenária — carregam a intenção

de transformar cada obra numa carta visual endereçada ao passado.

A contemplação de sua arte nos convida a uma reflexão que transcende a

tela: as flores podem guardar memórias? Podem. Assim como podem

carregar os traços de uma revolução, o perfume de uma corte e a atmosfera

de uma Paris que ela, mais de uma vez, chamou de sua.

E você? Que memória despertaria ao contemplar uma das flores de

Versailles pintadas por Adriana Soares?