A paleta da história, contudo, é feita de contrastes. Com o esmaecer do
Século de Ouro espanhol, o preto foi despido de sua conotação imperial
para se vestir de luto, tornando-se a sombra palpável da perda, como no
interminável pranto visual da Rainha Vitória. Mas mesmo na dor, a arte
encontrava formas de subverter. O escândalo provocado pelo vestido preto
de Virginie Gautreau no retrato de John Singer Sargent, a Madame X, não
era apenas sobre um decote, mas sobre a audácia de uma cor que, em um
instante, podia transitar da solenidade fúnebre para a provocação erótica,
anunciando a complexidade da mulher moderna que a Belle Époque
começava a esboçar.
Negro como o silêncio antes do nascimento da imagem. Íntimo como a pincelada
inaugural de um mestre diante da tela crua. O vestido preto — esse manto que
atravessa séculos — não é roupa: é manifesto. É arte em estado puro. Um gesto
pictórico que se curva às formas do corpo para contar a história da humanidade sob
um único tom.
Apenas um tom? Nunca. O preto, neste contexto, é o todo e o nada. É a ausência de
luz e o acúmulo de todas as sombras. É Goya com sua fúria barroca. É Velázquez,
com sua realeza silenciosa. É o pigmento mais caro da corte espanhola, fervido na
febre colonial. É o corpo esculpido pelo tempo e moldado por tragédias, desejos e
revoluções.