ArtNow Report - Ed. 08 - Port

A paleta da história, contudo, é feita de contrastes. Com o esmaecer do

Século de Ouro espanhol, o preto foi despido de sua conotação imperial

para se vestir de luto, tornando-se a sombra palpável da perda, como no

interminável pranto visual da Rainha Vitória. Mas mesmo na dor, a arte

encontrava formas de subverter. O escândalo provocado pelo vestido preto

de Virginie Gautreau no retrato de John Singer Sargent, a Madame X, não

era apenas sobre um decote, mas sobre a audácia de uma cor que, em um

instante, podia transitar da solenidade fúnebre para a provocação erótica,

anunciando a complexidade da mulher moderna que a Belle Époque

começava a esboçar.

Negro como o silêncio antes do nascimento da imagem. Íntimo como a pincelada

inaugural de um mestre diante da tela crua. O vestido preto — esse manto que

atravessa séculos — não é roupa: é manifesto. É arte em estado puro. Um gesto

pictórico que se curva às formas do corpo para contar a história da humanidade sob

um único tom.

Apenas um tom? Nunca. O preto, neste contexto, é o todo e o nada. É a ausência de

luz e o acúmulo de todas as sombras. É Goya com sua fúria barroca. É Velázquez,

com sua realeza silenciosa. É o pigmento mais caro da corte espanhola, fervido na

febre colonial. É o corpo esculpido pelo tempo e moldado por tragédias, desejos e

revoluções.