ArtNow Report - Ed. 08 - Port

VERSALHES

ENSINOU À MODA

FRANCESA QUE

VESTIR-SE É

HABITAR A ARTE.

O Palácio de Versalhes, mais que um centro de poder, foi uma vasta tela viva onde

a estética do Barroco e, posteriormente, a leveza sensual do Rococó, foram não

apenas vividas, mas vestidas. A opulência, a teatralidade e a ornamentação que

vemos nas pinturas de Charles Le Brun ou nos retratos de Hyacinthe Rigaud

encontravam seu reflexo direto nos trajes da corte. Os brocados pesados, as sedas

pintadas à mão com motivos florais que pareciam saltar das telas de Boucher ou

Fragonard, os bordados intrincados que rivalizavam com as tapeçarias de Gobelins

– tudo era parte de uma performance artística contínua. A própria silhueta, com

seus paniers e corpetes, era uma escultura ambulante, moldando o corpo segundo

os ideais estéticos da época.

Essa herança artística, essa compreensão da roupa como extensão da pintura e da

escultura decorativa, impregnou o DNA da alta-costura. O "New Look" de Dior, com

sua arquitetura têxtil, ecoava não apenas a forma, mas a intenção artística de criar

beleza estruturada, quase como uma resposta moderna às armaduras ornamentais

ou às esculturas clássicas. Chanel, ao simplificar, agiu como uma modernista

depurando a forma, mas ainda assim consciente do cânone artístico que subvertia.

Designers contemporâneos continuam a beber dessa fonte, retrabalhando a

exuberância barroca ou a delicadeza rococó, transformando a referência histórica

em citações artísticas, onde cada peça carrega ecos da grande pintura e das artes

decorativas que floresceram sob o olhar da realeza.