Seu traço firme e minucioso constrói imagens que encantam, mas também denunciam,
resgatam e celebram. O que poderia ser apenas desenho, nas mãos dele se transforma em
documento: uma crônica visual da experiência afro-brasileira. A caneta esferográfica,
simples e cotidiana, ganha um novo significado nas mãos de Elson Júnior.
Elson escolhe dar voz aos silenciados. Com sua técnica singular, ele recria cenas que
atravessam o tempo e o espaço, traçando conexões entre o presente e o passado, entre o
Brasil e o mundo — como nos retratos recentes de amigos que estiveram em Paris,
capturando, com elegância e profundidade, a potência simbólica desses encontros.
Sua trajetória é marcada pela imersão no universo afrodescendente e pela valorização de
uma estética comprometida com a memória e a identidade. Foi em Salvador, em meio à
força dos movimentos artísticos negros, que Elson bebeu da fonte de suas inspirações mais
profundas. As ruas, os rostos, os sons e as heranças culturais da cidade moldaram seu olhar
e sua linguagem.
Formado em Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Elson percorreu
diversas técnicas antes de se encontrar na precisão da esferográfica. Enquanto o mundo da
arte se volta a tecnologias e materiais sofisticados, ele aponta na direção contrária: retorna
ao essencial e transforma o mínimo em potência máxima.
A caneta esferográfica não é, para Elson, uma limitação. Pelo contrário — é sua ferramenta de
luta, sua extensão emocional, sua arma poética. Com ela, desenha narrativas densas,
delicadas, viscerais. Seus trabalhos falam de resistência, de ancestralidade, de fé e de beleza
— sempre com uma precisão que emociona.
Cada obra é um gesto político, um sussurro firme contra o apagamento histórico. Os rostos
que ele desenha — muitos deles amigos, símbolos vivos de uma geração em trânsito, entre
Salvador e Paris — tornam-se testemunhos da resiliência afro-brasileira. E em cada linha há
memória, coragem e celebração.
Na arte de Elson Júnior, o traço é verbo e a imagem é manifesto. Com sua esferográfica, ele
escreve capítulos de uma história que não pode ser esquecida — e convida o mundo a olhar
de novo. De Paris à Bahia, seus desenhos são mapas afetivos de pertencimento e resistência.