Existe uma dança que atravessa fronteiras, épocas e matérias. Uma dança que nasce
no palco de um teatro russo, ecoa pelas margens do Sena e pousa suavemente sobre
uma folha seca recolhida do chão. O Lago dos Cisnes, balé clássico do repertório
universal, carrega em seus movimentos o drama da transformação, da pureza e do
amor impossível — sentimentos que ecoam em qualquer canto do mundo onde a arte
ousa ser emoção.
É em solo francês, sob o ícone da Torre Eiffel, que essa narrativa ganha nova textura
pelas mãos da artista Bianca Barbosa. Em sua mais recente obra, o cisne branco surge
bordado com minúcia e poesia sobre uma folha natural, tendo ao fundo a silhueta
majestosa da torre parisiense. É uma união improvável — e por isso mesmo
encantadora — entre o sublime da dança, o peso histórico de um monumento e a leveza
quase invisível da natureza que cai.
O processo criativo é guiado pela sutileza dos elementos naturais. A asa do cisne foi
delicadamente feita com uma técnica autoral e bordada com uma matéria-prima
coletada na natureza: o algodão de seda. Este material raro e sensível traz uma textura
única e um brilho suave, refletindo a essência da natureza em cada detalhe. A
composição, bordada sobre folha seca, celebra a harmonia entre arte e meio ambiente,
e convida à contemplação silenciosa do efêmero.
Bianca, que trocou a exatidão dos laudos radiológicos pela fluidez dos fios, transforma
em arte o que o tempo descarta. Sua técnica — que mais parece alquimia — dá vida a
folhas que, secas e frágeis, renascem em forma de bordado. Um processo que ecoa, de
certo modo, a própria história da princesa Odette: marcada por uma maldição,
condenada a existir entre dois mundos — o da mulher e o do cisne —, e ainda assim,
absolutamente bela.
Na obra, o cisne branco não é apenas símbolo de pureza, mas também de resistência. E a
Torre Eiffel, tão sólida, ergue-se como contraponto à delicadeza da folha que a sustenta.
Nesse contraste, a artista nos oferece um novo modo de ver: não é apenas a arte que
imita a vida, mas a vida que insiste em florescer, mesmo sobre o que é considerado finito.
A composição é silenciosa, quase como uma pausa entre notas de Tchaikovsky, mas nela
pulsa uma história de reconexão com o natural, de valorização do que é simples e
essencial. Bianca Barbosa costura, ponto a ponto, um diálogo entre culturas, entre
clássicos e contemporâneos, entre o que é grandioso e o que é quase invisível.