ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Certas imagens não se contentam com a superfície da tela; elas se inscrevem

diretamente na pele do nosso tempo, marcando-a com os silêncios, as feridas e as

resistências da nossa era. A arte de Isabella Leme Villalpando pertence a essa linhagem

visceral. Com uma formação que entrelaça a tridimensionalidade da animação 3D à

matéria ancestral da pintura, gravura e escultura, Isabella constrói uma linguagem onde

o corpo – especialmente o feminino – é o território primordial de investigação, afeto e

denúncia.

Isabella combina a ancestralidade do gesto com a linguagem contemporânea da

imagem. Seu trabalho é híbrido, mas não fragmentado: é inteiro em sua pluralidade,

como um corpo marcado, que ainda assim dança.

Desde seus primeiros experimentos na faculdade, Isabella demonstrava que sua arte

não seria ornamental. Usava nanquim como quem escreve cartas urgentes. Sopros de

álcool sobre o papel criavam feridas visuais, enquanto canudos transformavam a

mancha em mapa, víscera ou resíduo. A técnica, aqui, não é um fim em si mesma, mas

uma extensão do que não cabe em palavras: a experiência do corpo feminino como

campo de batalha simbólica e literal.

Entre os temas que se impõem com força em sua produção estão os relacionamentos

abusivos, o feminicídio, a dor psíquica e o modo como essas violências se inscrevem na

carne e na memória das mulheres. Isabella não embeleza essas narrativas — ela as

encara. Sua pintura não oferece consolo fácil, mas uma espécie de espelho rasgado,

onde a fragilidade encontra sua força e a vulnerabilidade se transforma em resistência

estética, muitas vezes ancorada na potência simbólica e na resiliência espiritual de

matrizes africanas.

A criação, para Isabella Leme Villalpando, parece ser esse rito íntimo que se desdobra

em ato político. Cada obra é um fragmento de sua escuta do mundo, uma tradução

sensível das feridas e das forças que nos constituem. Ela nos lembra que a arte pode ser

um espelho incômodo, mas também um bálsamo necessário; que a mancha pode ser

cicatriz, mas também portal; e que o corpo feminino, tantas vezes violentado e

silenciado, pode ser, na tela e na vida, território de reivindicação, beleza e indomável

resistência. Sua obra não apenas retrata, ela pulsa.

A Pele da Imagem, a Cicatriz da Tinta

Isabella Leme