ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Algumas criações não se contentam em ser vistas — elas nos atravessam. Tocam

camadas silenciosas da alma, como se tivessem nascido de um lugar que já

conhecemos, embora não saibamos nomear. Assim é a obra de Marcelo Côrtes

Fernandes: ela não descreve o mundo, ela o pressente. É como se seus vulcões,

suas marés, seus dragões e amantes já estivessem vivos dentro de nós — à espera

do instante certo para emergir em cor e movimento.

Artista, engenheiro e poeta, Marcelo não se contenta em nomear o que existe. Ele

conjura. Transita entre mundos, entre meios, entre dimensões. Suas telas são

campos energéticos em ebulição — ora serenos como um suspiro, ora

incandescentes como um confronto entre forças primordiais. Em sua pintura, o

amor se curva ao vento, o mar fala em línguas antigas, e dragões se entrelaçam

como amantes ancestrais em voo espiralado.

No cerne de sua criação, Marcelo busca expressar o místico que reside no

cotidiano, a vida em sua manifestação mais pura. É um testemunho da energia

viva e amorosa que brota do invisível, manifestando-se no mundo em contínua e

transcendente evolução. Em suas obras, sentimos a pulsação desse fluxo vital que

se transforma, se eleva e ascende.

As sementes dessa arte foram lançadas cedo. As inspirações nos namoros e nas

lendas teceram o tema do encontro das polaridades e das emoções dos

relacionamentos, que floresceu na simbologia dos dragões gêmeos, seres de força

mítica que guardam a essência da união. Mas o mar, companheiro da infância

carioca junto ao Atlântico, infundiu em sua obra a vastidão, a força indomável e a

fluidez que permeiam muitas de suas telas. Em séries recentes, iniciadas em 2023,

os universos do oceano e dos dragões se encontraram, emergindo inicialmente

sutis entre as ondas para depois se revelarem em toda a sua potência simbólica.

Marcelo não se prende a um único meio para expressar essa energia. Explora

diversas técnicas, sentindo qual delas melhor traduz a pulsação daquele instante. A

arte digital, por exemplo, surge como uma extensão desse desejo – uma forma de

perenizar sua obra e permitir que essa energia rompa barreiras geográficas,

alcançando e tocando aqueles que a apreciam em outras partes do mundo,

sentindo-se mais próximo deles através do fluxo da arte.