As linhas se quebram, as cores transbordam — na arte de Lucia Guim, a inquietação se
torna uma linguagem visual. Artista de alma carioca que encontrou seu refúgio e ateliê
nas montanhas de Petrópolis, ela canaliza essa maré de inquietações que sente pulsar
no mundo e em si mesma. Sua arte não é um simples escape; é a alquimia que
transforma fantasmas internos e realidades urgentes em pura expressão.
Radicada em Petrópolis, Lucia explora técnicas como aquarela, nanquim, lápis de cera
e cerâmica com uma liberdade inquieta que beira o ritual. Não há rigidez formal — há
tensão. Em suas obras, a precisão encontra a ruptura, o gesto convive com a
delicadeza e a fúria coexiste com o silêncio. Suas composições parecem brotar de um
terreno íntimo, onde o inconsciente floresce em formas quase mitológicas, entre o
humano e o imaginário.
Lucia não busca representar — ela evoca. Seus trabalhos não entregam respostas, mas
instalam perguntas. São mapas emocionais de uma paisagem interior marcada por
feridas, memórias e resistência. A figura da mulher — tantas vezes oprimida, tantas
vezes reinventada — é presença recorrente e simbólica. Em sua obra, o corpo feminino
não é ícone nem vitrine, mas território. Território de força, de fraturas, de poesia.
Nesse território que conjura, a arte de Lucia Guim se torna um espelho. Composições
que, com a honestidade de suas fraturas e a beleza de suas cores, nos convidam a
confrontar nossas próprias inquietações, a reconhecer a tensão delicada entre a
ruptura e a força que habita em nós. É um diálogo silencioso entre a tela e a alma do
observador, um convite a mergulhar na cartografia complexa do ser que ela tão
bravamente traça.
Ao fazer da arte sua “válvula de escape”, Lucia constrói mais do que imagens: ela
constrói um refúgio estético onde realidade e devaneio se entrelaçam. Suas criações
nos lembram que a arte não precisa explicar — basta tocar. E Lucia Guim, com rara
sensibilidade, toca onde não sabíamos que doía.