ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Há artistas que pintam o que veem. Outros, como Adelaide Pinheiro Lima, pintam o que

sentem — ou o que lembram, sonham, pressentem. Médica, psicanalista e artista

plástica, ela habita um universo singular onde ciência e arte se fundem, onde a razão e a

emoção se encontram em uma paleta de possibilidades infinitas. Sua arte não é apenas

expressão estética; é o canal essencial, a expressão visceral de um universo interior

singularmente colorido, uma cura que se faz com cor, com sombra e com silêncio.

Adelaide transita entre a ciência e a criação com a leveza de quem escuta tanto o

coração quanto o silêncio das paredes internas do ser. Médica por vocação e artista por

natureza, ela costura mundos que não costumam se tocar. Em suas mãos, a pintura não

é apenas expressão estética — é método de escuta, é cura que se faz com cor, com

sombra e com silêncio.

Na obra inspirada nas ruas de Paris, a cidade se dissolve em linhas sutis e gestos fluidos.

A artista não nos entrega uma Paris turística, cartesiana. Sua Paris é íntima — feita de

olhares entre janelas, de cafés onde o tempo evapora com o vapor do chá, de um céu

que pesa como saudade. É uma Paris recriada com os olhos da alma, onde cada

tonalidade parece emergir de lembranças não vividas, mas sonhadas com intensidade.

Já diante do castelo francês, o espectador é convidado a atravessar a história, não

como turista, mas como viajante do invisível. Os contornos do castelo se elevam entre o

real e o imaginário, misturando arquitetura e emoção. Não há perspectiva linear, há

camadas. Camadas de tinta, de tempo, de simbolismo. É como se aquele castelo, talvez

perdido no interior da França, tivesse sido reconstruído pelo inconsciente — não como

era, mas como Adelaide o sentiu.

Sua paleta, ora terrosa como o outono europeu, ora pulsante como vitrais ao sol, nos

conduz por atmosferas que falam de introspecção, ancestralidade e pertencimento.

Cada obra parece sussurrar: “olhe mais fundo”. Porque as imagens de Adelaide não se

esgotam no que mostram — elas começam ali. A técnica, sólida e amadurecida, se

dissolve na sensibilidade com que ela nos entrega o invisível por meio do visível.

O olhar clínico que há décadas cura corpos, hoje também resgata ausências, acessa

silêncios e traduz afetos em tela. Entre o consultório e o ateliê, Adelaide encontra um

equilíbrio raro: sua arte é o lugar onde a realidade se dobra suavemente sobre a

imaginação, onde o mundo externo encontra eco no interno. É pintura que se faz escuta.

É paisagem que se torna espelho. Cada obra parece sussurrar: “olhe mais fundo”. Porque

as imagens de Adelaide não se esgotam no que mostram — elas começam ali.

Ao final, o que Adelaide nos oferece não é uma imagem de Paris — é uma travessia. Uma

experiência. Um sussurro de beleza que permanece nos olhos fechados. Como quem sai

de uma galeria secreta no coração do Marais e, por um instante, sente que a arte ainda

pode ser um lugar de encantamento, de abrigo e de revelação.