ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Natural de Montes Claros, Minas Gerais, sua trajetória é uma travessia profunda entre o

saber da medicina e o mistério da arte, entre o cuidado com o corpo e o acolhimento da

alma.

Formado em Ciências Biológicas, Enfermagem e Medicina, Farley caminhou por territórios

onde o sofrimento humano ecoa alto: hospitais, fronteiras esquecidas, aldeias indígenas

na floresta amazônica. Nessas experiências, aprendeu que há dores que remédios não

curam — e que a arte, com sua luz silenciosa, é capaz de tocar onde a ciência não

alcança. Nele, o olhar que investiga a biologia é o mesmo que perscruta a alma humana,

e as mãos que um dia se dedicaram ao cuidado do corpo são as mesmas que hoje

manejam pincéis e palavras para tocar o espírito.

Sua jornada não começa nos cânones tradicionais da academia de arte, embora a

tenha frequentado mais tarde, solidificando em Pintura o que já era chamado inato.

Começa antes, na escuta profunda do outro, na experiência visceral do acolhimento

social, na imersão respeitosa junto à medicina indígena e na respiração compartilhada

com a natureza amazônica. Esses não são meros temas em sua obra; são a seiva que a

nutre, as raízes que a sustentam. A floresta, com seus silêncios eloquentes e sua

resiliência vital, e as comunidades que guardam saberes ancestrais, tornaram-se parte

intrínseca de sua paleta existencial e, por consequência, artística.

Claro, os ecos dos mestres ressoam. A intensidade emocional de Van Gogh, a luz etérea de

Monet e Vermeer, a arquitetura onírica de Dalí, a ornamentação simbólica de Klimt – todos

pairam como referências afetivas, constelações distantes no vasto céu de sua formação.

Mas Farley recusa veementemente a sombra da imitação. Sua busca é pela autenticidade

radical, pela impressão digital anímica que só a ele pertence. As influências são digeridas,

transformadas, dissolvidas na química singular de sua própria voz, emergindo não como

cópia, mas como diálogo transmutado em algo novo, inconfundivelmente seu.

O acrílico, o digital, a palavra escrita: tudo é matéria para o seu gesto criativo. Em suas

telas, questões sociais e ambientais brotam como sementes: desigualdade, corrupção,

degradação da natureza. Farley não pinta apenas cenas; ele pinta perguntas. A floresta

amazônica — onde uma vez atendeu povos originários — ecoa em suas cores. A luta

silenciosa dos que sofrem pulsa em suas composições. O desejo de redenção inóspita se

estende de seus livros de ficção até as imagens que molda com as tintas.