Natural de Montes Claros, Minas Gerais, sua trajetória é uma travessia profunda entre o
saber da medicina e o mistério da arte, entre o cuidado com o corpo e o acolhimento da
alma.
Formado em Ciências Biológicas, Enfermagem e Medicina, Farley caminhou por territórios
onde o sofrimento humano ecoa alto: hospitais, fronteiras esquecidas, aldeias indígenas
na floresta amazônica. Nessas experiências, aprendeu que há dores que remédios não
curam — e que a arte, com sua luz silenciosa, é capaz de tocar onde a ciência não
alcança. Nele, o olhar que investiga a biologia é o mesmo que perscruta a alma humana,
e as mãos que um dia se dedicaram ao cuidado do corpo são as mesmas que hoje
manejam pincéis e palavras para tocar o espírito.
Sua jornada não começa nos cânones tradicionais da academia de arte, embora a
tenha frequentado mais tarde, solidificando em Pintura o que já era chamado inato.
Começa antes, na escuta profunda do outro, na experiência visceral do acolhimento
social, na imersão respeitosa junto à medicina indígena e na respiração compartilhada
com a natureza amazônica. Esses não são meros temas em sua obra; são a seiva que a
nutre, as raízes que a sustentam. A floresta, com seus silêncios eloquentes e sua
resiliência vital, e as comunidades que guardam saberes ancestrais, tornaram-se parte
intrínseca de sua paleta existencial e, por consequência, artística.
Claro, os ecos dos mestres ressoam. A intensidade emocional de Van Gogh, a luz etérea de
Monet e Vermeer, a arquitetura onírica de Dalí, a ornamentação simbólica de Klimt – todos
pairam como referências afetivas, constelações distantes no vasto céu de sua formação.
Mas Farley recusa veementemente a sombra da imitação. Sua busca é pela autenticidade
radical, pela impressão digital anímica que só a ele pertence. As influências são digeridas,
transformadas, dissolvidas na química singular de sua própria voz, emergindo não como
cópia, mas como diálogo transmutado em algo novo, inconfundivelmente seu.
O acrílico, o digital, a palavra escrita: tudo é matéria para o seu gesto criativo. Em suas
telas, questões sociais e ambientais brotam como sementes: desigualdade, corrupção,
degradação da natureza. Farley não pinta apenas cenas; ele pinta perguntas. A floresta
amazônica — onde uma vez atendeu povos originários — ecoa em suas cores. A luta
silenciosa dos que sofrem pulsa em suas composições. O desejo de redenção inóspita se
estende de seus livros de ficção até as imagens que molda com as tintas.