ArtNow Report - Ed. 08 - Port

Há olhares que funcionam como pontes, ligando mundos aparentemente distintos com a

força silenciosa da sensibilidade. O de Tiago Lucas é um desses. Nascido no coração

planejado de Brasília, sua trajetória inicial o levou aos códigos e à lógica da advocacia,

mas foi um chamado mais profundo, uma vocação visual latente, que o redirecionou

para a arte. Ele não apenas trocou de profissão; ele realinhou sua bússola interna com a

paisagem de sua alma, encontrando na fotografia a sua linguagem mais autêntica.

A epifania aconteceu do outro lado do mundo. Durante um intercâmbio na Austrália, em

2015, a compra da primeira câmera para registrar viagens se revelou um encontro

definitivo. A lente tornou-se extensão de seu olhar, e a arte de fotografar, uma paixão

visceral. Autodidata, guiado pela intuição e por uma curiosidade insaciável, Tiago Lucas

não seguiu os cânones tradicionais, mas lapidou sua própria trilha, desenvolvendo uma

assinatura visual que flutua com delicadeza entre o registro documental e a poesia

lúdica.

Seu trabalho é um testemunho da interconexão. Em suas composições, paisagens

naturais e urbanas não se opõem, mas dialogam; a silhueta altiva de um animal silvestre

encontra eco na abstração orgânica de uma folha em decomposição; a vastidão de um

céu contrasta com a minúcia de um detalhe terrestre. Tiago não busca apenas a beleza

estética – embora ela transborde de suas imagens – mas sim a narrativa contida em

cada frame. Cada fotografia é um convite a desacelerar, a observar e a refletir sobre

nossa própria relação com o entorno, uma busca pela essência natural que reside tanto

fora quanto dentro de nós.

Inevitavelmente, esse olhar atento e conectado deságua no ambientalismo. Sua

fotografia não é apenas estética; é um manifesto silencioso, um lembrete visual da

fragilidade e da potência do nosso planeta. Cada imagem carrega em si a urgência da

preservação, a necessidade do consumo consciente e a beleza intrínseca daquilo que

corre o risco de se perder. A câmera, em suas mãos, torna-se uma ferramenta de

diálogo, um instrumento para despertar consciências e inspirar um cuidado mais

profundo com o lar que compartilhamos.

Esse olhar atento e carregado de propósito não passou despercebido. O reconhecimento

veio através de menções honrosas no prestigioso Brasília Photo Show (BPS), maior

concurso fotográfico da América Latina – em 2021, pela obra "Árvore Solitária do Lago

Wanaka", e como semifinalista em 2024, com "Entardecer Radiante no Lago Paranoá".

Tiago Lucas nos oferece mais que imagens; ele nos entrega fragmentos de um mundo

que clama por atenção, janelas para paisagens que nos convidam à introspecção e à

ação. Sua fotografia é a prova de que a arte pode ser, simultaneamente, beleza e alerta,

poesia e documento, expressão pessoal e chamado coletivo. É um convite a reencontrar

nossa própria natureza através da lente sensível de um artista que escolheu a imagem

como sua forma de cuidar do mundo.