ArtNow Report - Ed. 08 - Port

No universo cromático e profundamente humano de Ijanes Guimarães, a tela

não é apenas superfície, mas um espelho generoso onde cada espectador

pode encontrar um fragmento de si.

Nascida em Antônio Almeida - Piauí e com trajetória construída em Imperatriz,

no Maranhão – Brasil, Ijanes não separa sua prática como artista de sua

trajetória como professora. Há 28 anos na educação, sua escuta é afiada, seus

olhos atentos. Ali, entre os corredores das escolas, ela testemunhou o que

muitos insistem em não ver: crianças negras tentando se encaixar em um

padrão que as silencia, meninas excluídas pelo simples fato de existirem fora da

estética dominante.

As protagonistas de suas telas são meninas que desafiam a norma, que

florescem para além da "caixa minúscula" dos estereótipos. Negras, gordas,

plenas em suas singularidades, elas são, para Ijanes, a personificação da

verdadeira beleza – autêntica, pulsante, inegociável. A artista as imortaliza em

momentos de pura vivacidade, a energia das brincadeiras traduzida em uma

paleta de cores que canta a alegria, que celebra a inocência com a força de um

sol que não se pede licença para brilhar. Suas texturas, um convite tátil,

adicionam uma camada de ludicidade, aproximando a obra da experiência

sensorial da infância.

Com uma paleta vibrante, quase onírica, ela reinventa o imaginário da infância.

Em suas composições, há movimento, há texturas que saltam da superfície e

parecem convidar ao toque. A artista mistura materiais, sobrepõe camadas,

injeta energia e afeto em cada figura. E ao fazer isso, nos recorda: o brincar é

um direito, e ser criança não deveria ser um risco - de exclusão, de invisibilidade

ou de indiferença.

Ijanes pinta instantes preciosos com a leveza de quem sabe que o tempo é

frágil — e que cada infância marcada pelo preconceito é uma tragédia

silenciosa. Ao retratar essas meninas como centrais, completas e coloridas, ela

constrói, tela a tela, uma nova forma de reparação: simbólica, amorosa,

transformadora.