FÓLIO
PORT
Dani Fontenelle
“Não há nada obrigatório na arte, porque a
arte é livre.”
Wassily Kandinsky
A arte de Dani Fontenelle nasce no ponto exato em que o
gesto se dissolve e a matéria assume o comando.
Nada nela é cálculo. A tinta age por impulso, a cor se move
por instinto, o tempo participa como testemunha silenciosa.
Cada obra é o resultado de um acontecimento: a pintura
não é feita, ela acontece — como um fenômeno natural,
irrepetível e inevitável.
O vermelho, presença constante em sua trajetória, pulsa
como o centro vital de sua obra.
Não é cor, é temperatura. É o sangue da criação, o calor do
instante, a vibração que sustenta o invisível.
Esse vermelho não representa: ele irradia. Expande-se para
além da forma e alcança o corpo de quem o vê,
provocando sensação antes de pensamento.
A Liberdade do Gesto
Na arte de Dani Fontenelle, a tinta não é obediente — é viva. Ela
escolhe o caminho, escorre, se encontra e se transforma em
pensamento.
Vermelho
É cor e é ritmo.
É sangue que corre, flor que se abre,
fogo que não pede licença.
Pintar com o vermelho é tocar o território
da origem —
e, ao mesmo tempo, o da revolução.
Na história da arte, o vermelho foi
sempre ambíguo: cor do poder e do
perigo, da paixão e da punição.
Mas nas mãos femininas ele muda de
sentido.
Na mulher que cria, o vermelho deixa de
ser ameaça e se torna afirmação.
Não é o tom do escândalo, mas o da
presença —
um lembrete de que existir é
um ato de força contínua.
O vermelho é a cor da fertilidade, mas não apenas biológica. É
a fertilidade do pensamento, da emoção, da criação. É a cor
das mulheres que inventam linguagens, que fazem da tinta um
território onde podem existir inteiras. Em cada camada dessa
cor há um batimento. Em cada mancha, uma lembrança do
que é nascer, perder, recomeçar. O vermelho carrega em si o
ciclo completo: a dor, o prazer e a possibilidade.
Na pintura, ele é uma força viva — jamais neutra, jamais
contida. Quando uma artista mergulha no vermelho, ela
mergulha em si mesma. O vermelho é o território das mulheres
que criam mundos: que fazem da tinta, da palavra ou do gesto,
o lugar onde podem existir inteiras. Em cada camada dessa cor
há um ritmo interior, uma lembrança de que viver é fluir entre
começos e recomeços.
Quando uma artista o escolhe, ela não está apenas colorindo:
está se ligando ao que há de mais vital dentro de si. O vermelho
é o fio invisível entre corpo e cosmos, entre gesto e sentimento,
entre ação e sentido. É a cor que torna visível o que o coração
sente antes que a mente compreenda.
Por fim, o vermelho é o tom do renascimento. A cada nova
camada, ele queima e cura, destrói e refaz. É a cor que marca o
instante em que o velho se dissolve e o novo se atreve a nascer.
Porque o vermelho, em sua essência, não pertence ao fogo nem
ao sangue — pertence àquilo que faz tudo existir: a coragem de
sentir profundamente e continuar criando.
A Artista
A pintura de Dani Fontenelle não nasce de um desenho nem de um
desejo de controle.
Ela acontece — como a água que encontra passagem, como o
instante que se derrama sem pedir permissão. A tinta escorre, o
tempo participa, e o gesto, em vez de comandar, acompanha. Nesse
espaço entre o acaso e a intenção, a artista transforma o invisível
em presença, e a cor em pensamento.
Autodidata, plural, vinda de Recife e há décadas em Brasília, Dani
aprendeu a fazer da arte um território de liberdade absoluta. Sua
formação em direito e administração moldou uma mente analítica,
mas foi na pintura que ela encontrou a alquimia entre razão e
instinto, disciplina e entrega. O ateliê se tornou o lugar onde o
mundo exterior silencia e a matéria começa a falar — onde o erro
deixa de ser desvio e se torna linguagem.
Em sua técnica, o líquido é pensamento em movimento. A tinta
acrílica, densa ou translúcida, é guiada por gravidade, tempo e
intuição. Cada obra é uma experiência irrepetível: o calor do dia, a
densidade do pigmento, o gesto do momento — tudo interfere e tudo
importa. O resultado é sempre orgânico, vibrante, imprevisível.
Como se cada pintura tivesse decidido nascer à sua maneira.
Há nas obras de Dani Fontenelle
uma tensão sutil — um diálogo
permanente entre condução e
entrega.
Entre
o
gesto
que
orienta e a matéria que insiste
em
seguir
seu
próprio
curso,
nasce
um
território
onde
imprevisto
se
torna
linguagem.
Suas
pinturas
não
buscam
reproduzir o real, mas reinventá-
lo. O espectador não observa à
distância — é absorvido. Há nelas
uma
vibração
silenciosa,
uma
energia que atravessa o olhar
antes
mesmo
de
ser
compreendida.
Cada
obra
é
uma
pausa
no
tempo, um território onde cor e
fluidez se confundem. O que se
move sobre a tela não é tinta,
mas vida em fluxo, em busca da
forma que ainda não existe, mas
já se anuncia.
HÁ MOMENTOS NA
HISTÓRIA DA ARTE EM QUE
A PRÓPRIA MATÉRIA
PARECE REIVINDICAR O
DIREITO DE CRIAR.
Foi assim em 1936, quando David Alfaro Siqueiros, em seu ateliê
experimental na Cidade do México, começou a derramar tintas sobre
chapas metálicas e observar o que acontecia. O artista não buscava
apenas novas formas — ele investigava o comportamento físico da tinta,
a reação entre densidades, a velocidade com que o pigmento se
expandia
e
encontrava
seus
próprios
caminhos.
Naquele
gesto
inaugural, algo essencial foi descoberto: a pintura podia acontecer sem
obediência.
Anos depois, Jackson Pollock transformaria essa experiência em
linguagem. Ao abandonar o pincel e permitir que a gravidade e o
movimento do corpo definissem o traço, Pollock inaugurou uma nova
relação entre artista e obra — uma relação de parceria e risco, onde o
controle cede espaço à intuição. O gesto do derramamento tornou-se
símbolo de liberdade: o instante em que o artista deixa de “fazer” para
permitir que a arte aconteça.
C r e a t e y o u r
p r o f e s s i o n a l
p o r t f o l i o
@ r e a l l y g r e a t s i t e
“ A a r t e m e e n s i n o u q u e o b e l o n ã o s e
i m p õ e — e l e s e p e r m i t e a c o n t e c e r ” .
D a n i F o n t e n e l l e
C r e a t e y o u r
p r o f e s s i o n a l
p o r t f o l i o
@ r e a l l y g r e a t s i t e
Mas a história do derramamento não
pertence apenas ao passado. Em tempos
contemporâneos,
artistas
como
Dani
Fontenelle
ressignificam
esse
legado,
trazendo
ao
fluxo
o
olhar
da
sensibilidade feminina — mais voltado à
escuta do que à imposição. Em suas
obras, o ato de derramar não é acidente,
é método; não é perda de controle, é
aliança com o imprevisível. A tinta, livre
para se mover, encontra a gravidade, o
tempo, a temperatura — e, no encontro
dessas forças, a artista reconhece o
nascimento de algo que ultrapassa a
intenção.
A pintura fluida é, antes de tudo, um exercício de
confiança. Exige que o artista abdique da certeza e
compreenda que o belo pode surgir do imprevisto. É
um território onde a criação se faz em diálogo com a
física, a química e o acaso — e onde o gesto humano
se mistura ao ritmo natural das coisas.
Quando
a
tinta
escorre,
ela
pensa.
Quando
pigmento se espalha, ele respira. E quando o artista
observa, sem tentar dominar, ele descobre uma
verdade antiga: a arte não é apenas uma ação sobre
a matéria — é uma conversa com ela.
As obras de Dani não nascem do desejo de domínio,
mas de uma relação de cumplicidade com a matéria.
No derramamento, ela descobre o ponto exato em
que a intenção cede ao fluxo — onde técnica e
instinto se entrelaçam, e o gesto se torna pura
presença. É nessa fronteira delicada, em que a tinta
parece agir por vontade própria, que sua arte revela
o que escapa à lógica: a beleza do que surge sem
comando, mas com sentido.
“O derramamento é o meu modo de dizer que o imprevisível
também tem sua delicadeza. “ Dani Fontenelle
Na pintura de Dani Fontenelle, a tinta não
é ferramenta — é acontecimento. Nada é
imposto, nada é previsto. A cor encontra
o próprio caminho, guiada pela gravidade,
pelo
tempo
e
por
uma
espécie
de
sabedoria
silenciosa
que
habita
matéria. O gesto da artista não busca
controle: busca convivência. Ela não
conduz o derramamento — apenas o
permite. É nessa entrega que o azul se
revela. Não como cor, mas como estado.
O azul em suas telas não cobre a
superfície: a atravessa. Ele se espalha
com a serenidade de quem conhece a
profundidade. Flui como memória líquida,
como
se
cada
camada
fosse
um
pensamento em dissolução.
Há, nesse azul, a mesma vibração do silêncio —
aquele instante em que tudo está prestes a se
mover, mas ainda respira antes do gesto.
Enquanto
o
vermelho
emana
pulsação,
presença e fogo interior, o azul de Dani nasce
do intervalo — do espaço onde o olhar
descansa e o espírito se expande. É um azul
que não congela: vibra em sutilezas, respira
por
transparências,
sugere
mais
do
que
mostra. Entre densidades e leves véus, o
pigmento cria profundidades que parecem
refletir o infinito. Suas telas não descrevem
mares nem céus — descrevem estados de alma.
01.
02.
Um gesto que suspende o tempo
e devolve à tinta o direito de ser
matéria viva. Ali, o acaso não é
acidente: é participação.
Cada camada resulta do encontro entre
intenção e natureza, intuição e física — e
é nessa fusão que a arte se torna um
acontecimento compartilhado entre o
humano e o elemento.
Inspirada na Catedral de Brasília, de Oscar Niemeyer,
esta obra transforma o monumento em presença.
A estrutura deixa de ser arquitetura e se converte
em gesto — uma sugestão de forma que parece
nascer da própria luz.
O azul e o branco se encontram como o céu e o
concreto, criando um campo luminoso em que o olhar
completa o que a artista apenas insinua.
Em seu processo, a gravidade substitui o pincel e o
fluxo define o contorno.
O azul — ora profundo, ora diáfano — oscila entre
leveza e densidade, fazendo com que a luz pareça ter
corpo.
O branco atua como pausa, um intervalo que permite
à cor expandir-se sem pressa, como se cada
transparência fosse também um respiro do tempo.
A Catedral que surge dessa pintura não pertence ao
espaço físico, mas à percepção.
É uma imagem que se forma e se dissolve, como um
reflexo d’água em movimento.
O que Dani propõe não é venerar, mas contemplar:
um instante em que forma e silêncio se equilibram.
Nessa obra, o sagrado se traduz em harmonia — o
ponto onde o gesto encontra a leveza e a cor se
transforma em luz.
“O azul me ensina que a serenidade também
tem movimento.”
Dani Fontenelle